O que Anne (com “E”!) tem a nos ensinar

Livro - Anne de Green Gables - (Texto integral - Clássicos ...

Na literatura, há personagens que permanecem em nosso imaginário durante décadas, ultrapassando os próprios limites do universo ficcional. Adotada por engano pelos irmãos Marilla e Mathew Cuthbert, Anne é uma criança de imaginação fértil e enorme espontaneidade – capaz de nos cativar desde as primeiras páginas de sua história. Embora sua primeira aparição date de 1908, os ensinamento que sua trajetória nos traz superam igualmente as barreiras do tempo, tornando-se cada vez mais necessários ante a desumanidade que nos ameaça.

Certamente, uma de suas principais mensagens perpassa a coragem de sermos nós mesmos. Afinal, por dar asas à criatividade, expressando livremente suas ideias, a protagonista é censurada por todos de maneira contínua. A questão de gênero constitui um ponto relevante nesse contexto, na medida em que os comportamentos impostos apresentam-se diferentes para meninos e meninas. Assim, destas são exigidos decoro e delicadeza, e as reprimendas de adultos comumente aludem às atitudes esperadas de uma “dama”.

Ainda nessa perspectiva, a existência de padrões de beleza mostra-se, desde a infância, um fator degradante na existência da mulher. Envolta em cabelos ruivos e sardas, Anne contraria os ideais de aparência vigentes, recorrendo a estratégias arriscadas para alterar sua imagem. Sua insatisfação é fonte de ansiedade e angústia – e os julgamentos insensíveis de que é vítima apenas agravam seus sentimentos, quando mais necessita de acolhimento e proteção. Portanto, descobrir a singularidade de sua própria beleza torna-se um novo desafio em seu percurso.

Embora publicado no início do século XX, o romance “Anne de Green Gables” mantém-se assustadoramente atemporal. Assustadoramente porque, conquanto nos remeta a um sentimento de nostalgia, apresenta costumes e preceitos retrógrados ainda presentes em nosso tempo. Não é incomum encontrar propagandas de brinquedos voltados a atividades domésticas – que nada teriam de condenável não fosse a presença unicamente de meninas. E, mesmo que os métodos de educação tenham avançado no decorrer dos anos, não se deve ignorar a existência de práticas antiquadas em escolas – restringindo o potencial de cada criança. Se no contexto de Anne o castigo físico era normalizado perante a sociedade, é certo que o ensino regular dificilmente se articula a fim de propiciar o desenvolvimento individual de cada um. Logo, esses cenários exemplificam o quanto ainda temos de aprender para nos aproximar de uma existência mais humana.

Em um mundo normatizador, onde nossa autenticidade é continuamente atacada, a protagonista do clássico infantil é uma fonte permanente de inspiração. Suas atitudes clamam por empatia, aceitação, respeito – sem os quais jamais vivenciaremos a vida em conjunto em sua plenitude. Ser um pouco como Anne a cada dia não é apenas necessário, é um ato de coragem e transgressão.

Josefina Álvares de Azevedo, jornalismo e voto feminino

Mulheres viram chance de voto na proclamação da República, mas ...

Fundadora do jornal “A Família” e árdua defensora do voto feminino, Josefina Álvares de Azevedo foi uma das brasileiras notáveis que tiveram seu nome desvanecido ao longo dos anos. De fato, são poucos os registros de sua biografia: dados conflitantes sobre o local de nascimento e o ano da morte permanecem questões dúbias para aqueles que se dedicam a estudá-la. Contudo, sua contribuição ao movimento feminista, em um contexto no qual predominavam ainda ideais antiquados e patriarcais, é incontestável e merece ser rememorado.

Suas origens são incertas. Afora o possível parentesco com o escritor Álvares de Azevedo, estudos indicam que a jornalista teria nascido no Rio de Janeiro em 1851, enquanto outros afirmam ser Recife sua cidade-natal – como sugerido em um de seus artigos. Sendo esta uma teoria mais provável, o ano de 1878 seria marcado por sua chegada a São Paulo, onde instituiria o periódico “A Família” uma década depois. Possivelmente por sua natureza inovadora, não obteve um público tão amplo quanto a autora gostaria, justificando sua ida à capital do Império após um breve período.

Jornal “A Família”: ano de 1888 | Bertha Lutz – Museu Virtual
Jornal “A Família” (1888)

Desde sua concepção, as publicações defendiam claramente a educação da mulher, embora o teor revolucionário não fosse uma constante em tais reivindicações. Contudo, mesmo que por vezes fundamentados no melhor desempenho dos papéis de mãe e esposa – subordinando-se aos preceitos sociais da época – os textos deram voz a escritoras que, de outro modo, dificilmente teriam seu trabalho publicado. Não somente em artigos, mas também em poesias, contos e crônicas, essas figuras puderam dedicar-se à escrita além da esfera do divertimento, mais aceitável em meio à sociedade.

É importante destacar que a imprensa feminina, cujas origens remontam à Inglaterra e à França, possuía uma pauta historicamente vinculada ao sistema patriarcal. Assim, temas como moda e atividades domésticas representavam entretenimento para as leitoras, sem contrariar as normas sociais estabelecidas. No entanto, o final do século XVII teve a Revolução Francesa como um marco para mudanças vindouras, observadas igualmente no jornalismo. Dessa forma, periódicos feministas passaram a florescer nesse país, e não tardaria para que seu exemplo fosse seguido em outras regiões.

No Brasil, as cidades de Recife e Rio de Janeiro concentravam os jornais voltados a essa proposta. Todavia, sua aceitação não era absoluta, e a própria redação de “A Família” tornou-se alvo de reiteradas críticas, por parte de homens e mulheres que exigiam assuntos mais amenos. Fato é que Josefina não se abstinha em semelhantes ocasiões, publicando respostas e contra-argumentos veementes, e mesmo criticando obras que traziam uma visão enviesada de seu sexo. À frente de seu tempo, apoiava a implementação do casamento civil e do divórcio – posição que igualmente suscitou inúmeros comentários negativos.

Afora a produção jornalística, a autora produziu ainda textos literários, sendo especialmente relevante “O Voto Feminino”. Encenada em 1890, a peça teatral ressoava as nascentes discussões sobre participação eleitoral, ainda nos primeiros tempos de república. Assumindo o formato de comédia, gênero que ampliava o alcance da mensagem por seu caráter popular, defendia a inovadora concepção de mulheres votarem e serem votadas – em um período no qual sequer eram consideradas cidadãs. Mediante as figuras de Inês, Esmeralda e Joaquina – além do Sr. Florêncio, única personagem masculina a concordar com a causa apresentada – a escritora reivindica para os mulheres o poder de decisão. E, apesar da conclusão pouco animadora, a obra reitera a necessidade de lutar por transformações.

De modo contraditório, as esparsas produções poéticas de Josefina em nada sugeriam sua atitude reivindicatória – perpassando temas como amor e religião em tom profundamente romântico. Excetua-se o poema “Cidadã ou Cidadoa” – a abordar, de forma humorística, o reconhecimento da população feminina enquanto detentora dos mesmos direitos que os homens.

Por último, a escritora desenvolveu uma coletânea contendo biografias de mulheres corajosas, ousadas e que contrariaram os padrões socialmente aceitos. Intitulada de “Galeria Ilustre (Mulheres Célebres)”, destacou a atuação de figuras fora da realidade brasileira – fator que não anula seu papel de inspiração para as leitoras. Em uma abordagem mais próxima do público, a também escritora Ignez Sabino publicou “Mulheres Ilustres do Brasil”. A mesma proposta encontrava-se nas publicações de “A Família”, possuindo seção própria.

Portanto, cabe questionar o motivo de tal contexto ter sido excluído das páginas da história. A despeito da clara influência do patriarcalismo no apagamento de trajetórias tão relevantes, a contínua reflexão sobre o tema nos permite resgatar memórias inspiradoras para nossa luta. Afinal, em um cenário de constante atentado às conquistas sociais, qualquer recrudescimento na área será, no mínimo, uma afronta aos esforços conjuntos de indivíduos no decurso da humanidade.


Referências:

BOLIGON, Isabel Cadore. A autorrepresentação e a busca de emancipação da mulher nos textos de Josefina Alvares de Azevedo. 2019.

DE AZEVEDO, Josefina Álvares. A Mulher Moderna: trabalhos de propaganda. Senado Federal, Edições Técnicas, 2018.

OLIVEIRA, Karine da Rocha. Josefina Álvares de Azevedo: a voz feminina no século XIX através das páginas do jornal A Família. Programa Nacional de Apoio à Pesquisa-FBN/MinC, 2009.

Tag dos 50% (2020)

Não costumo responder a tags por aqui – nunca o fiz, na verdade. Contudo, admito ser difícil recordar todas as minhas leituras ao fim do ano, especialmente aquelas das quais não possuo a obra física. Por isso, decidi manter este breve registro de minhas impressões literárias nos últimos meses, desconsiderando as releituras realizadas.


1. O melhor livro que você leu até agora.

Responder a tal pergunta será sempre um desafio para nós, leitores. Porém, não tenho dúvidas de que “Mulheres, Raça e Classe”, obra de Angela Davis, foi uma das leituras de maior impacto para mim no primeiro semestre. Com uma escrita fluida e esclarecedora, a autora delineia muitos dos avanços, retrocessos e desafios dos movimentos sociais nos Estados Unidos – mas que podem ser facilmente transpostos à realidade brasileira.

2. A melhor continuação que você leu até agora.

Não tenho lido séries há algum tempo. Embora deseje conhecer algumas, sempre termino por priorizar histórias únicas.

3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito.

Recentemente, descobri a poesia de Hilda Hilst por meio de textos esparsos na internet – mas foi o suficiente para me encantar por sua figura! Acredito que minha primeira incursão em sua prosa será a partir do texto “A Obscena Senhora D”. Além disso, desejo ler o segundo e o terceiro volumes da série “Anne de Green Gables” (e o primeiro igualmente, mas esse foi lançado em 2019…).

4. O livro mais aguardado do segundo semestre.

Não tenho muito conhecimento sobre os próximos lançamentos, principalmente neste contexto de pandemia. Entretanto, interesso-me pelos romances de Clarice Lispector, relançados ao longo do ano em homenagem a seu centenário. Também espero ansiosamente pelo lançamento da biografia de Hilda Hilst, mas não acredito que ocorrerá ainda em 2020.

5. O livro que mais te decepcionou neste ano.

Essa é certamente uma pergunta desafiadora, pois decepções costumam envolver muito mais nossas expectativas que a qualidade da obra em si. De toda forma, meu primeiro contato com a escrita de Balzac não foi tão impactante quanto eu esperava. Apesar de ter aproveitado a leitura de “Ilusões Perdidas”, contendo críticas realmente contundentes à sociedade, não se tornou umas das minhas experiências literárias favoritas.

6. O livro que mais te surpreendeu neste ano.

Uma de minhas surpresas mais recentes foi “Um Quarto com Vista”, romance de E. M. Forster – por simples preconceito de minha parte. Confesso que esperava encontrar apenas “mais do mesmo” em sua obra, porém realmente me envolvi com a história narrada – que tem motivos de sobra para destacar-se.

7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro no último semestre, ou que você conheceu recentemente).

Uma de minhas melhores descobertas neste ano foi Angela Carter, por meio daquela considerada uma de suas narrativas mais polêmicas: “A Paixão da Nova Eva”. Sua escrita apresenta uma marca própria, em um misto de estranheza e singularidade, mas sempre guardando íntima relação com as problemáticas do mundo real. Sem dúvidas, darei continuidade à leitura de suas obras (que bem poderiam ser relançadas no Brasil…).

8. A sua quedinha por personagem fictício mais recente.

Não costuma ocorrer em minhas leituras.

9. Seu personagem favorito mais recente.

Resistindo à tentação de responder com uma de minhas releituras – Merricat Blackwood seria minha primeira alternativa nesse caso – diria que Hedda Gabler foi uma personagem marcante para mim. Não por ter me cativado especialmente, mas devido à sua complexidade.

10. Um livro que te fez chorar no primeiro semestre.

Não costumo chorar durante minhas leituras, embora me emocione ocasionalmente. Para essa pergunta, elencaria “Amada”, de Toni Morrison – cuja escrita singela e única me tocou verdadeiramente em algumas passagens.

11. Um livro que te deixou feliz no primeiro semestre.

Selecionei dois livros nesta categoria, ambos por terem me surpreendido positivamente. Em relação ao romance “Eva Luna”, de Isabel Allende, mal conhecia sua sinopse ao iniciar a leitura, mas ao final dela me senti profundamente cativada. Além disso, uma de minhas incursões pela literatura brasileira contemporânea (raras, admito) mostrou-se uma surpresa bastante agradável: “Se Deus me Chamar não Vou”, de Mariana Salomão Carrara. Embora o enredo não pareça tão original a princípio, a voz da jovem narradora o torna uma história única.

12. Melhor adaptação cinematográfica de um livro assistido até agora, em 2020.

Assistir ao filme “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” – adaptado da peça de mesmo nome, escrita por Edward Albee – foi uma experiência impactante, sem dúvidas. Admito, no entanto, que não tenho interesse em ler a obra original – talvez pelo longa já me ter sido tão completo.

11. Sua resenha favorita do primeiro semestre.

É comum que, ao escrever uma resenha, eu não esteja inteiramente satisfeita com o resultado final – embora meu autojulgamento costume atenuar-se ao relê-las algum tempo depois. Porém, algumas das resenhas que me deixaram feliz logo após tê-las escrito foram as de “Vulgo Grace” (releitura, considerando que a resenha foi elaborada neste ano) e “Eva Luna”.

12. O livro mais bonito que você comprou ou ganhou neste ano.

Não comprei ou ganhei qualquer livro ao longo do primeiro semestre. Na realidade, realizei minha primeira aquisição há alguns dias, mas a entrega ainda não ocorreu.

13. Quais livros você precisa ou quer muito ler até o final do ano?

Sempre tenho uma enorme lista de obras que desejo ler. Por ora, irei me ater às minhas últimas compras – as duas primeiras histórias de “Anne de Green Gables” estão entre elas.


Como foram suas leituras durante o primeiro semestre? Contem-me nos comentários! De toda maneira, é importante destacar que é normal não manter o ritmo habitual de leitura em tempos de tamanha ansiedade. O essencial é que jamais tornemos a literatura uma espécie de obrigação.

*Créditos: Tag traduzida pelo canal Geek Freak.

Leituras do mês | Junho de 2020

Ultimamente, mal tenho notado a passagem do tempo; sinto-me perplexa ao constatar que metade do ano já se passou. Sei que é uma questão de menor importância em nosso contexto, mas fico rememorando o quanto estava empolgada para explorar a biblioteca da universidade. Enfim, de todo modo, a leitura permanece uma constante em minha vida. Compartilho a seguir as principais obras que li ao longo do mês.


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“O Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha: A partir da trajetória de Amaro, que passa a integrar a Marinha após fugir do regime escravocrata, a obra perpassa questões como homossexualidade no ambiente militar e hipocrisia. Seja pelas temáticas em si, seja pela maneira explícita pela qual foram abordadas, “O Bom-Crioulo” permanece um romance de caráter transgressor, contrariando conservadorismos ainda presentes em nosso tempo.

“A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels: Em seguida, li uma das obras indicadas no curso sobre feminismo que realizei recentemente. Caso tenha interesse, recomendo que leia meu modesto texto sobre essa experiência de leitura. Como não tenho muita propriedade para tratar do assunto, apenas digo que foi uma ótima maneira de refletir e analisar sobre diversas problemáticas ainda existentes.

“Sempre Vivemos no Castelo”, de Shirley Jackson: Certamente, esta foi umas das releituras que superaram minha experiência anterior com a obra! Desenvolvendo uma atmosfera única, a autora delineia o cotidiano da família Blackwood, cuja maioria dos integrantes fora envenenada durante um jantar. Rejeitadas pelos demais moradores da região, Merricat e Constance demonstram um forte laço e uma enorme determinação frente às adversidades. Sem dúvidas, é um belo exemplo de protagonismo feminino na literatura!

“What Diantha Did”, de Charlotte Perkins Gilman: Li ainda uma obra menos conhecida de Charlotte Perkins Gilman, autora do conto “O Papel de Parede Amarelo”. Publicada em 1910, “What Diantha Did” contraria diversos preceitos sociais da época, apresentando como protagonista uma jovem que decide desenvolver o próprio negócio. Contudo, se por um lado o romance mostra-se à frente de seu tempo em certo sentido, por outro, demonstra o pensamento racista da escritora – exposto em muitos de seus trabalhos de ficção e não-ficção.  Confesso que, após obter conhecimento de tais informações, não me sinto disposta a adentrar em suas demais histórias.


Já leram alguma das obras? Quais foram suas impressões?

A violência no cinema como crítica social

O cinema representa um amplo espaço de debate e crítica social. Sem as barreiras da censura, filmes são capazes de suscitar questões relevantes em uma sociedade que, de maneira infeliz, insiste em permanecer cega ante as desigualdades e os preconceitos de nosso tempo. Assim, ampliando a discussão desses temas, tais obras têm o mérito de trazer à tona a “poeira debaixo do tapete” – ainda que de modo passageiro. Permanece, então, a difícil tarefa de eternizar a mensagem apresentada, em um mundo onde o excesso de informações constrói indivíduos propensos ao esquecimento.

É claro que, tratando-se de um universo tão amplo, são inúmeros os recursos e as abordagens adotados para esse fim. Algumas películas expressam de forma sutil e delicada as tragédias cotidianas, despertando a emoção do público. Outras, por outro lado, optam por uma perspectiva mais agressiva – recorrendo inclusive à violência gráfica para explorar a barbaridade do ser humano. Minha pretensão aqui não é comparar ou desmerecer qualquer uma delas – divisões bastante simplistas, por sinal, e incapazes de abarcar a complexidade da linguagem cinematográfica. Busco apenas rebater comentários negativos a respeito da agressividade presente em alguns filmes de crítica social, acusados – injustamente, em minha opinião – de incitar a violência.

O que podemos esperar de Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e ...
Cena do filme “Bacurau” (2019)

Um exemplo recente desse enfoque encontra-se em “Bacurau”. Ambientado na cidade fictícia de mesmo nome, o longa expõe uma população abandonada pelo poder público, vítima de governantes que mal veem além do próprio interesse e, descaradamente, somente recordam sua função em época eleitoral (algo de novo?). No decorrer da história, eventos inusitados rompem a rotina da comunidade – como o aparecimento de drones e visitantes indesejados – assumindo tons de ficção científica e faroeste.

Afora as inúmeras referências de cinema ali presentes, que meu parco conhecimento na área me torna desqualificada para abordar, destaca-se a união dos habitantes ao voltarem-se contra seus exploradores. Armados de facões, são gradualmente animalizados em sua selvageria – processo que tivera início muito antes de tais ocorrências. Afinal, por anos, o tratamento a eles destinado fora indigno de qualquer ser vivo.

41ª Mostra Internacional de SP: Marlina the Murderer in Four Acts ...
Marlina e Novi em cena do filme “Marlina the Murderer in Four Acts” (2017)

Já “Marlina the Murderer in Four Acts” – produção indonésia de 2017 – é um tanto desconhecida, porém não menos impactante. Vivendo sozinha após as mortes do marido e da sogra, a protagonista é vitimizada por um grupo de homens que, vendo-a como uma jovem indefesa, decide estuprá-la coletivamente. Porém, violentada por um deles na própria casa, Marlina acaba decapitando-o e envenenando os demais. Tais acontecimentos têm lugar ainda nos minutos iniciais da película, que passa a abordar a jornada da personagem até o posto policial mais próximo, a fim de relatar o ocorrido.

Igualmente, uma atmosfera de faroeste perpassa a história – contendo perseguições e assassinatos – mas sempre calcada na realidade. Nesse sentido, é importante notar sua mensagem de companheirismo feminino, a partir do apoio mútuo entre a protagonista e Novi, mulher grávida vítima da rejeição e do abuso do marido – baseado em nada mais que preconceitos machistas e inconsistentes. Com o passar do tempo, torna-se evidente o descaso geral com a violência contra a mulher – mesmo por parte daqueles que deveriam protegê-la.

Diante do exposto, a agressividade adotada pelas personagens representa um último ato frente às mazelas que as acometem diariamente. Em ambos os longas, são apresentados indivíduos marginalizados e oprimidos, e o sangue nas telas mal se compara àquele de suas feridas, em uma analogia que ultrapassa o universo ficcional. Cabe relembrar que o sangue não é apenas metafórico – os diversos casos de feminicídio e violência policial estão aí para constatá-lo.

Portanto, se determinadas cenas incomodam, fazem-no porque nos expõem à dura realidade. Não há dúvidas de que o incômodo é necessário, pois cumpre papel de inquietar e propor mudança. Deveria-nos causar indignação o fato de que tanta barbaridade na ficção seja necessária para voltar nossos olhares às mazelas sociais, quando são constantes no mundo vivente. Ao fim de tudo, custa-me aceitar que debates de tamanha relevância estejam, por vezes, sujeitos ao “hype” de uma obra ou a uma data específica. Talvez seja o meu pessimismo falando mais alto, mas não acredito que mesmo a pandemia do COVID-19 dará fim à nossa era do esquecimento.

“What Diantha Did” e as contradições na obra de Gilman

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Historicamente, a luta feminina tem sido marcada por avanços e retrocessos – conquistando garantias e direitos que nem sempre se concretizam no cotidiano. Se hoje as mulheres empreendedoras, por exemplo, ainda têm de unir esforços para integrar um meio notadamente machista, por outro, seria impensável sequer uma delas estar à frente de uma empresa há algumas décadas. E, no entanto, essa é a premissa de “What Diantha Did”, romance de 1910 escrito por Charlotte Gilman Perkins. Mais conhecida pelo conto “O Papel de Parede Amarelo”, a autora expressou diversos de seus ideais em suas obras – desde pensamentos progressistas a respeito de seu sexo até, de modo infeliz, abordagens racistas e eugênicas.

Ambas as conjunturas encontram-se presentes no livro em questão. Logo no início do enredo, a jovem Diantha contraria o patriarcalismo vigente ao deixar a casa dos pais para investir em seu próprio negócio. Não é surpresa que a personagem tem de suportar o julgamento e a oposição de todos à sua volta – incluindo a família e o noivo. Porém, confiante na ideia desenvolvida – um serviço de atividades domésticas, como limpeza e culinária, que permitiria maior economia e liberdade por parte das empregadoras, além de melhores condições de trabalho para as funcionárias – ela aventura-se em busca de seu sonho. E, embora seu intuito original tenha sido obter lucros para o casamento, mais tarde revela estar muito mais interessada na própria independência que na adequação a antiquados padrões sociais.

Talvez o termo “aventurar-se” não seja exato na descrição de suas ações. A rigor, durante todo o desenrolar da história, a protagonista demonstra inteiro domínio no planejamento logístico e financeiro de seu projeto – atribuindo, inclusive, valores monetários para todos os serviços domésticos que havia executado até aquele momento. Expondo-os a seu pai, Diantha desvela o trabalho não reconhecido de inúmeras mulheres – desencorajadas a almejarem diferentes ocupações frente aos restritos preceitos sociais. Em comparação aos custos de seu sustento, rigorosamente calculados a fim de desmantelar as objeções de seu progenitor, tais somas mostram-se inclusive superiores. Nesse sentido, seu papel subverte as características atribuídas à mulher na época, como futilidade – enquanto seu noivo, ironicamente, revela-se pouco eficaz na administração dos negócios do falecido pai.

Contudo, como mencionado anteriormente, a trajetória de Charlotte Perkins Gilman é, no mínimo, contraditória. Defendendo a superioridade de determinadas raças em detrimento de outras, a escritora sugeriu um programa de alistamento de pessoas negras – destinado a tirá-las de sua suposta inferioridade e torná-las úteis à população branca. Tamanha intolerância refletiu diretamente em sua escrita ficcional e não-ficcional, sendo a própria Diantha emissora de comentários racistas ao mencionar uma de suas funcionárias.

Certamente, “What Diantha Did” não é uma obra-prima. Transpondo barreiras em certos sentidos, especialmente em relação à autonomia da mulher, revela concepções retrógradas da autora – ainda que em menor grau se comparado a outros de seus textos. Cabe, portanto, conhecê-lo com um olhar crítico – rememorando os esforços e os avanços no campo dos direitos humanos, bem como as injustiças que ainda tolhem inúmeras vidas. Afinal, após mais de oitenta anos da morte de Gilman, muitos de seus preconceitos são defendidos por indivíduos e grupos em todo o mundo. O que isso nos diz sobre a humanidade?

 

A beleza do estranho em “Sempre Vivemos no Castelo”

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Escritora estadunidense do século XX, Shirley Jackson foi, por vezes, relegada ao esquecimento no decorrer dos anos. Felizmente, tal contexto tem sido atenuado por novas adaptações de suas obras, além das recentes reedições publicadas no Brasil. Vivenciando experiências conturbadas, desde a relação conflituosa com sua mãe até o relacionamento abusivo durante o casamento, a autora transmitiu a suas narrativas todo o sentimento de angústia e ansiedade que a acometia constantemente. E, a julgar por “Sempre Vivemos no Castelo”, romance que tive a oportunidade de reler há alguns dias, o resultado foi uma composição única, dotada de atmosfera própria e uma perfeita representação das mazelas humanas.

Parte dessa ambientação peculiar deve-se à narradora da história – Mary Katherine Blackwood. Vivendo em uma mansão isolada ao lado da irmã e do tio inválido, após o restante de sua família ter sido envenenada durante um jantar, “Merricat” apresenta uma perspectiva um tanto infantil e cruel da realidade. Enquanto a população local construiu uma opinião deturpada sobre os Blackwood, acusando Constance do crime a despeito de sua absolvição, os moradores da distinta construção permaneceram em perfeito isolamento – vivenciando uma rotina própria e supostamente segura.

Ao longo das páginas, o protagonismo feminino vem inevitavelmente à tona. Nesse sentido, as práticas da personagem principal – enterrando objetos e entoando palavras mágicas – remetem à cultura de perseguição às bruxas, como ocorrido na Nova Inglaterra no século XVII. Utilizada como ferramenta de opressão das mulheres, especialmente aquelas em contradição aos preceitos sociais, tal conjuntura é perceptível na obra de Shirley Jackson – na medida em que as irmãs Blackwood são vítimas de atos excludentes e degradantes. Assim, não só a rejeição ao diferente, como o julgamento hipócrita adotado por seus conterrâneos refletem contextos prementes na vida em sociedade.

Ao mesmo tempo, a supremacia masculina é representada em diversos momentos do enredo. Com a chegada de Charles, primo distante cujos interesses mostram-se meramente financeiros, Merricat logo nota sua tentativa de exercer domínio sobre a família – até então coordenada por mulheres. Dessa forma, em consonância aos diversos comentários machistas proferidos por moradores da região, evidencia-se a tendência geral de ver no homem o natural provedor do lar.

Por fim, a escrita da autora revela uma tensão crescente, levando-nos a questionar a própria humanidade das personagens. Envolta em preconceitos e violência, a comunidade local pouco difere da suposta selvageria e falta de racionalidade que se costuma atribuir aos demais animais. Afora a narração original, Shirley Jackson compôs uma verdadeira homenagem aos excluídos e oprimidos, retirando a carga negativa do não convencional. Logo, é com enorme admiração que declaro ser “Sempre Vivemos no Castelo” uma das histórias mais belamente estranhas (ou estranhamente belas?) que tenho lido nos últimos tempos!

 

Para ler “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”

A Origem da Familia da Propriedade Privada e do Estado. Em Conexao ...

Ao longo da história ocidental, consolidou-se no imaginário popular a representação familiar monogâmica, associada à supremacia masculina e à subordinação da mulher. Se, por um lado, tais noções têm sido gradualmente desconstruídas, por outro, seus resquícios são ainda evidentes em nossa sociedade. Por isso, leituras capazes de abrir a nossa mente são fundamentais – não com respostas prontas, mas suscitando novas dúvidas e reflexões sobre o contexto em que vivemos.

Nesse sentido, a obra “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, escrita por Friedrich Engels, constitui um estudo relevante por questionar o lugar-comum – desde seu ano de publicação, 1884, até os nossos tempos. Embasando-se principalmente no trabalho do antropólogo Lewis H. Morgan, o autor reconstrói a trajetória das sociedades, contrariando pensamentos difundidos mesmo entre os acadêmicos de então.

Ao escrever este texto, não tenho intenção de pormenorizar os temas abordados ou assumir um tom didático. Busco apenas incentivar sua difusão para que os demais – inclusive leitores leigos como eu – possam refletir sobre como determinadas lógicas são tomadas como certas ainda hoje, sem qualquer análise ou objeção. Tais preceitos, é claro, encontram-se comumente em uma esfera conservadora, contribuindo para a perpetuação de preconceitos e injustiças.

Assim, uma das principais ideias a serem refutadas pelo escritor é a prevalência masculina durante todo o percurso da humanidade. Antes, suas investigações apontam para o direito materno como predominante em um tempo no qual a paternidade era dificilmente identificada. Vinculam-se a isso as diferentes percepções de família existentes no decorrer da história, classificadas pelo teórico como consanguínea, punaluana e sindiásmica. Desde a época em que as relações sexuais eram proibidas apenas entre gerações, perpassando sua exclusão também entre irmãos, até os padrões atuais, o livro desconstrói a suposta eternidade do núcleo familiar monogâmico.

Mesmo essa noção torna-se ambivalente, na medida em que a monogamia mostra-se, na prática, conectada somente às mulheres – sujeitas ao julgamento social e a punições legais no decurso dos séculos. Os homens, por outro lado, podem recorrer a traições e prostituição sem maiores obstáculos.

“O heterismo é uma instituição social como outra qualquer, e mantém a antiga liberdade sexual… em proveito dos homens. Embora seja, de fato, não apenas tolerado, mas praticado livremente sobretudo pelas classes dominantes, ele é condenado em palavras. E essa reprovação, na realidade, nunca se dirige contra os homens que o praticam e sim, somente, contra as mulheres, que são desprezadas e repudiadas, para que se proclame uma vez mais, como lei fundamental da sociedade, a supremacia absoluta do homem sobre o sexo feminino.”

“Aquilo que para a mulher é um crime de graves conseqüências legais e sociais, para o homem é algo considerado honroso, ou, quando muito, uma leve mancha moral ‘que se carrega com satisfação.”

Ao mesmo tempo, Engels relaciona a gradual subjugação feminina ao crescente interesse econômico, apontando a posse de terras e instrumentos e a herança como fatores primordiais para a consolidação do direito masculino. Dessa forma, delineando o estado selvagem, a barbárie e a civilização – referentes às principais formas de vida que temos desenvolvido desde tempos remotos – o autor demonstra estarem os dois âmbitos intimamente relacionados. De uma associação fundamentada no comunismo primitivo, os seres humanos passam a dividir-se em exploradores e explorados, conforme as riquezas materiais assumem maior importância no cenário vivente.

“Dessa forma, pois, as riquezas, à medida que iam aumentando, davam, por um lado, ao homem uma posição mais importante que a da mulher na família, e, por outro lado, faziam com que nascesse nele a ideia de valer-se desta vantagem para modificar, em proveito de seus filhos, a ordem da herança estabelecida. Mas isso não se poderia fazer enquanto permanecesse vigente a filiação segundo o direito materno. Esse direito teria que ser abolido, e o foi.”

“[…] o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros.”

Quanto à conclusão do autor de que, em um natural processo de evolução, o fim do sistema capitalista levará à equiparação entre o homem e a mulher na sociedade, tenho minhas dúvidas. Logicamente, essa é uma maneira deveras simplista de indicar sua opinião. Por isso, recomendo que leia sua obra, releia, reflita, relacione, analise. E, quaisquer que sejam seus pontos de vista, será pouco provável que não identifique muitas das problemáticas abordadas em nosso cotidiano.

“Os interesses mais vis – a baixa cobiça, a brutal avidez de prazeres, a sórdida avareza, o roubo egoísta da propriedade comum – inauguram a nova sociedade civilizada, a sociedade de classe; os meios mais ultrajantes minam e perdem a velha sociedade sem classes das Gens: o furto, a violência, a perfídia e a traição. E a nova sociedade, através desses dois mil e quinhentos anos de sua existência, não tem sido senão o desenvolvimento de uma pequena minoria às expensas de uma grande maioria explorada e oprimida; e continua a sê-lo, hoje mais do que nunca.”

 

 

A transgressão presente em “O Bom-Crioulo”

Bom-Crioulo - Volume 1. Coleção Grandes Nomes da Literatura ...

“O Bom-Crioulo”, romance brasileiro de autoria de Adolfo Caminha, abordou de maneira crua a temática da homossexualidade no ambiente militar. Publicado nos anos finais do século XIX, seu caráter transgressor desagradou a muitos leitores da época, circunscritos ao pensamento conservador e falso moralismo tão prementes em sociedade.

Ainda no início da narrativa, deparamo-nos com a personagem Amaro – negro anteriormente escravizado e que, após sua fuga, obteve um posto na Marinha. Apelidado de “Bom-Crioulo”, ele demonstra apresentar todos os atributos de masculinidade e rigidez esperados em sua pessoa – especialmente ao se considerar os estereótipos associados à força braçal dos cativos. Logo, a questão racial, evidente na denominação que o protagonista recebe, é também tratada ao longo das páginas – em uma representação dos preconceitos e da hipocrisia vigentes.

Contudo, transgredindo os “valores” e as expectativas associadas a ele, o homem robusto passa a desenvolver atração por um jovem colega de trabalho, Aleixo, que mal atingira a maturidade. A partir de então, com uma linguagem sensual e envolta em erotismo, o autor delineia a relação conflituosa entre ambos – retratando a perda da inocência, os ciúmes e a luxúria.

Escritor enquadrado no movimento naturalista, Adolfo Caminha não hesita em tratar das facetas mais sórdidas da humanidade, retratando os desenlaces de um amor doentio e obsessivo. Assim, afora a abordagem de um tema tão polêmico para o período quanto o homoerotismo, o livro também revela traços de relacionamentos abusivos – sejam eles entre pessoas de igual sexo ou não. Evidencia-se, portanto, sua natureza inovadora – tardiamente redescoberta no meio acadêmico.

Leituras do mês | Maio de 2020

Em tempos de pandemia e isolamento, a leitura me tem sido um alicerce. A bem da verdade, nunca me pareceu tão clara a importância dos livros – que, levando-me a novos mundos, discussões e horizontes, quebram a monotonia dos dias e possibilitam um olhar mais amplo sobre tudo aquilo que nos cerca. Enfim, foram estas as obras concluídas durante o mês.


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“Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis: No início do mês, pude reler uma obra que, até pouco tempo atrás, esteve esquecida no Brasil. Conheci-a antes de suas recentes republicações e, hoje, sinto-me bastante satisfeita ao notar a relativa notoriedade que tem alcançado no país. Embora revestida de certo teor romântico, “Úrsula” revela inovações ao abordar temáticas como escravidão e relacionamentos abusivos – dando voz a personagens marginalizados na literatura e na história. Tratando-se de um romance curto e em domínio público, acredito ser sua leitura uma experiência enriquecedora – mesmo porque as problemáticas abordadas reverberam ainda em nosso cotidiano.

“De Gados e Homens”, de Ana Paula Maia: A escrita da autora foi-me uma grata surpresa! Questionando os limites entre o humano e o animal, a obra retrata a natureza exploratória de nosso modo de vida. Assim, percorrendo questões como as condições indignas de trabalho, a penúria e o caráter violentador da indústria da carne, “De Gados e Homens” possui como cerne a miséria humana em suas mais diversas formas.

“Um Quarto com Vista”, de E. M. Forster: Ao selecionar minha próxima leitura, não possuía altas expectativas em relação à obra de E. M. Forster. Talvez esse fato tenha contribuído para minha admiração quanto à história, pois, pouco conhecendo o autor, deparei-me com uma verdadeira jornada de libertação feminina. Contra os preceitos de uma sociedade extremamente conservadora, Lucy passa a questionar-se sobre seu papel e sua (falta de) liberdade. É claro que, de forma concreta, tal jornada é permeada por idas e vindas – fazendo-nos duvidar da própria possibilidade de superação de pensamentos arcaicos.

“Gênero e desigualdades: Limites da democracia no Brasil”, de Flávia Biroli: No último mês, iniciei o curso gratuito “Feminismo: Por Que Lutamos?” e, para acompanhar o conteúdo abordado, recorri a leituras sobre a temática. O texto em questão introduz algumas das principais pautas feministas – como divisão sexual do trabalho, autonomia reprodutiva e participação política – apontando como o sexismo tem afetado a vida das mulheres em diferentes esferas. Além disso, a autora evidencia raça e classe enquanto fatores que influenciam as experiências de opressão feminina, vitimizando determinados grupos de maneira mais acentuada. Sem dúvidas, trata-se de uma abordagem bastante esclarecedora – especialmente ante a atual tendência, por parte de alguns indivíduos, de alastrar discursos que vão de encontro às discussões sobre gênero e sexualidade, em uma aparente tentativa de anular os direitos conquistados em tais áreas.

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“O Voto Feminino no Brasil”, de Teresa Cristina de Novaes Marques: Disponível gratuitamente em sua versão digital, essa obra propõe-se a expor, de maneira acessível, a luta travada pelas mulheres no alcance de seus direitos políticos. Ao longo das páginas, são também retratadas figuras marcantes nessa trajetória – levando-me, sendo o texto tão breve, a pesquisar e me encantar pela história de personagens tão corajosas, que não se conformaram ante a opressão imposta. Certamente, essa leitura, associada a estudos mais aprofundados e discussões sobre cada pauta abordada, teria sido uma experiência bastante enriquecedora em meus anos de escola.

“Hedda Gabler”, de Henrik Ibsen: Há alguns anos, encontrei um exemplar de “Casa de Bonecas” na biblioteca, peça teatral consagrada da literatura norueguesa. Recordo-me ainda do impacto da obra ao tratar da emancipação feminina, surpreendendo-me positivamente com suas críticas mordazes à hipocrisia e aos preconceitos correntes. Logo, pergunto-me por que não recorri às demais publicações do autor antes. Em “Hedda Gabler”, mais uma vez, uma personagem feminina é retratada – sofrendo ante as limitações impostas pelos preceitos sociais. O realismo e a visão aguçada do autor mostram-se prementes em sua escrita, dotando-a de caráter angustiante – especialmente ao identificarmos marcas das mazelas ali retratadas em nossa realidade.

“Mulheres, Raça e Classe”, de Angela Davis: Por fim, entrei em contato com a obra de Angela Davis, que certamente estará entre as leituras favoritas do ano. Fornecendo um panorama histórico da opressão e dos movimentos sociais nos Estados Unidos, a autora evidencia as intersecções existentes entre gênero, classe e raça – tornando insuficiente a discussão de tais temas de maneira isolada. Antes, a conjugação dessas problemáticas possibilita uma discussão mais ampla da realidade e das formas de exploração existentes, em todas as suas nuances e conjunturas. Embora escrito nos anos 1980, o livro permanece assustadoramente real, apresentando semelhanças indiscutíveis com a própria trajetória brasileira.


Como foi o seu mês de leituras? Já leram alguma das obras citadas? Se sim, adoraria conhecer suas impressões!