“As Meninas” – um romance inovador

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Publicado em 1973, em meio aos “anos de chumbo” da Ditadura Militar, o romance “As Meninas” constitui uma verdadeira quebra de paradigmas.

Em primeiro lugar, as jovens protagonistas – cujos pensamentos nos são apresentados a partir de um sublime fluxo de consciência – contrariam os padrões socialmente aceitos da época. Nesse sentido, Lorena, Lia e Ana Clara – cada uma com sua própria trajetória e perspectiva de mundo – representam a busca por autoafirmação frente a um mundo pautado em normas, enquanto questionamentos sobre sua identidade são constantemente manifestados durante a narrativa.

 

“Mas por que minha cabeça tem que ser minha inimiga, pomba. Só penso pensamento que me faz sofrer. Por que esta droga de cabeça tem tanto ódio de mim?”

Em segundo lugar, a autora expõe a atmosfera de censura e temor que permeava o período retratado. Assim, em pleno regime militar, a obra suscita temáticas ainda pertinentes nos dias atuais – como homofobia, drogas e aborto. Cabe ressaltar que a polêmica em torno de tais questões continua expressiva – mesmo após quase cinco décadas da publicação da obra – revelando o pensamento arcaico e preconceituoso enraizado em nossa sociedade. Esse entendimento – sobretudo diante do governo presente e de seus discursos e ações claramente retrógrados – mostra-se necessário a fim de evitar novos contextos de ódio e violência, não tão distantes da realidade brasileira.

“Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou a filha é homossexual. Entendo que se aflija com droga e etecetera mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito […].”

Por fim, as inovações do romance apresentam-se ainda no plano narrativo – no qual as perspectivas de Lorena, Lia e Ana Clara são enleadas e desenvolvidas de maneira única. Dessa forma, acompanhando seus fluxos de pensamento e divagações, passamos a entrever as singularidades de cada protagonista – cada vez mais humanas ao nosso olhar. Afinal, como afirmou Drummond, “todo ser humano é um estranho ímpar”; e que mais são “as meninas” senão estranhas a carregarem os fardos da vida?

“Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo.”

Em suma, essa leitura revelou-se surpreendente nos mais diversos sentidos, demonstrando o talento e a coragem da escritora em abordar temas tão relevantes. Claramente, Lygia Fagundes Telles figura entre os grandes nomes da literatura brasileira!

 

 

 

“The Nightingale” – um retrato da violência

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Em meio à Austrália do século XIX, durante a colonização britânica, a jovem Clare tem sua vida despedaçada ao presenciar o assassinato de sua família. Indignada frente à passividade da justiça, a condenada irlandesa almeja a própria vingança, percorrendo longas distâncias em busca dos responsáveis pelo crime.

No decorrer do filme, são desvelados os atos de violência e exploração contra a população nativa. A temática – personificada por Billy, aborígene que conduz Clare em sua jornada – reflete um amplo contexto histórico. Violentados ainda no início da colonização, os habitantes locais foram amplamente perseguidos com a chegada dos britânicos, em 1803 – que estabeleceram uma colônia penal na região. Destituídos de seu território, viram-se desprovidos de recursos para a própria sobrevivência.

Entre as décadas de 1820 e 1830, o conflito acentuou-se gravemente, originando a “Guerra Negra” na Tasmânia. Dizimados de maneira sistemática – em um verdadeiro genocídio, conforme a opinião de historiadores como Lyndall Ryan – os aborígenes tiveram sua população reduzida drasticamente, com o agravo de infecções provenientes da Europa. A parca comunidade remanescente foi, em seguida, realocada em outros locais – como a Ilha de Flinders – perdendo, peremptoriamente, os direitos sobre a própria terra.

watercolour showing two Aboriginal people sitting in a clearing with a small settlement in the background and the sea beyond.
“Residence of the Aborigines, Flinders Island” (1846) – John Skinner Prout.

Assim, são notáveis a hostilidade e o desrespeito que têm permeado a história da humanidade. Sob o jugo de nações ricas e influentes – autoproclamadas superiores – diversos povos tiveram seus direitos esfacelados frente à violência dos colonizadores. Tal cenário revela as contradições existentes no conceito de selvagem – termo talvez mais apropriado para apontar as ações das sociedades consideradas “civilizadas”.

Certamente, a película dirigida por Jennifer Kent desnuda, de maneira crua e repulsiva, o tratamento desumano destinado aos aborígenes. E, embora as cenas de estupro e crueldade possam suscitar incômodo, são elementos necessários para manifestar o passado sangrento dos nativos da região – cujas perdas jamais serão reparadas.

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Billy, representante da população aborígene no filme “The Nightingale” (2019)

As palavras de Karen Blixen

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Conhecer novos escritores costuma levar-me a um mundo de surpresas e sensações inteiramente únicas, no qual o inesperado revela-se a cada página transcorrida. Assim foi minha experiência com a autora Karen Blixen. Conhecendo sua vida e obra apenas de modo superficial, dediquei-me à leitura de “Anedotas do Destino” – coletânea de contos que perpassam temáticas como memória, arte e realidade.

Ainda nas primeiras passagens da obra, pude notar sua habilidade magistral com as palavras – compondo narrativas que remetem, por vezes, à cultura de fábulas e contos de fadas. Contudo, sob a aparente simplicidade de suas histórias, encontram-se reflexões e abordagens sobre a própria existência humana – cujos destinos são, continuamente, conduzidos em meio aos caminhos e “descaminhos” da vida.

Dentre os contos selecionados, a relação entre ficção e realidade mostra-se sobretudo em “O Mergulhador”, “Tempestades e “A História Imortal”. Já “A Festa de Babette” proporciona uma experiência singular, ao envolver a força de costumes e tradições perante o elemento novo, em uma narrativa responsável por suscitar diferentes sensações. Por fim, um evento breve acaba por revelar-se uma verdadeira epifania à protagonista de “O Anel” – desvelando a superficialidade de sua vida sob a vivência aparentemente satisfatória.

Em suma, a escrita de Karen Blixen encantou-me com sua linguagem singela e, ao mesmo tempo, capaz de abordar questões tão prementes ao longo de nossa trajetória. Gradativamente, tenho ainda buscado conhecer a biografia da autora, fascinando-me cada vez mais por sua força e autenticidade – a resvalarem sobre suas obras de maneira marcante.

 

 

Leituras do mês| Novembro de 2019

No início de minhas férias, pude dedicar-me à leitura e apreciar obras incríveis. Portanto, nada melhor que partilhar minhas impressões! 🙂


1

“Hora Zero”, de Agatha Christie: Embora Agatha Christie permaneça entre minhas escritoras favoritas, não lia suas obras há algum tempo. Por isso, fiquei extremamente satisfeita ao retomar esse hábito lendo “Hora Zero” – que, apesar de não figurar entre suas melhores narrativas, é capaz de ilustrar a escrita envolvente e perspicaz da autora. Por fim, recomendo que a leitura seja realizada como uma “página em branco”, sem antes conferir a sinopse – a fim de intensificar o suspense e o mistério próprios da literatura policial.

“O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo: Após a leitura de “Os Miseráveis”, a escrita do autor continua me surpreendendo positivamente! Nessa obra, somos expostos à França medieval – envolta em costumes, preconceitos e arquitetura única – onde se desenrolam as vivências e as trajetórias das personagens. Sem dúvidas, trata-se de uma narrativa inesquecível, capaz de suscitar sentimentos tão diversos quanto tristeza, raiva e contentamento.

“Treze à Mesa”, de Agatha Christie: Como mencionado anteriormente, a obra de Agatha Christie tem me cativado cada vez mais ao longo dos anos. Nessa narrativa, como de costume, deliciei-me com o mistério, a tensão e as investigações do memorável Hercule Poirot – e sua apurada “massa cinzenta”, é claro! 🙂

2

“Oliver Twist”, de Charles Dickens: Narrando a trajetória do pequeno Oliver, vítima da pobreza e das mazelas sociais durante a infância, o autor expõe críticas ainda pertinentes nos dias atuais. Assim, a obra não só denuncia o cenário de abandono infantil, como também apresenta um protagonista encantador, cujo destino é continuamente tolhido pela penúria.

“O Natal de Poirot”, de Agatha Christie: Embora não tivesse altas expectativas quanto ao livro, esse revelou-se uma leitura incrível – tornando-se um de meus preferidos da autora! Em suma, apresenta um desfecho inteiramente inesperado, mediante a conduta e o raciocínio do admirável Hercule Poirot. ❤

“Senhora”, de José de Alencar: Por fim, pude revisitar essa obra de José de Alencar, cujas críticas ao casamento por conveniência mostram-se mordazes. Em minha releitura, fui capaz de apreciar ainda mais a vingança de Aurélia e, embora não estime o desfecho promovido pelo autor, de reverenciar a qualidade literária da narrativa.


Já leram alguma das obras mencionadas? Se sim, quais foram suas impressões?

“Senhora” e o dinheiro como valor humano

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Ambientado no Brasil do século XIX, o romance “Senhora” tece críticas ao caráter mercantil do casamento, a partir da trajetória da jovem Aurélia. Vivenciando experiências de pobreza ao longo da vida e, também, tornando-se vítima dos interesses financeiros da sociedade da época, a personagem passa a pertencer à elite, ao receber uma soma considerável como herança. Assim, destacando-se por sua beleza e fortuna, ela decide vingar-se de Fernando Seixas, que a abandonara por uma garota de dote superior.

Pertencente a um tempo pautado em aparências e intolerância, Aurélia contraria os papéis de gênero socialmente aceitos – apresentando independência e raciocínio únicos. Admirada em todos os bailes, a protagonista demonstra deleite e escárnio ao ridicularizar o próprio meio em que vive. Ironizando o “comércio matrimonial”, avalia seus pretendentes como verdadeiras mercadorias e estabelece valores para cada um.

“As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca, por certo, apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa a vassalagem que lhe rendiam.”

Ao longo da narrativa, especialmente após seu casamento com Seixas, a jovem inverte as relações de poder, tomando “posse” daquele que a rejeitara no passado. Desse modo, institui as regras de um casamento por conveniência, cujas motivações econômicas o tornam um negócio – no qual cada um deve desempenhar o seu papel perante a sociedade.

“-Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. […] Entremos na realidade por mais triste que ela seja, e resigne-se cada um ao que é; eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.”

Em síntese, a influência do dinheiro nas relações interpessoais é desnudada, de forma mordaz, pelo escritor. Contudo, embora a prática abordada não se mostre amplamente aceita nos dias atuais, é inegável o poder exercido pela riqueza. Afinal, envoltos em um modo de vida capitalista, os indivíduos têm sido continuamente avaliados segundo seus meios econômicos – padecendo frente a uma sociedade ainda preconceituosa e intolerante. A fim de apropriar-se da própria dignidade, devem dispor de avultosos recursos – sem os quais são despidos de direitos e aceitação.

Nesse sentido, as críticas de José de Alencar revelam aspectos que permeiam o mundo contemporâneo – tornando-se bastante pertinentes na busca por uma vivência mais humana.

“Oliver Twist” e o abandono infantil

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Ambientada no período de efervescência industrial da Inglaterra, no século XIX, a obra “Oliver Twist” retrata as mazelas sociais da época de forma contundente. Narrando a trajetória do protagonista, cujos infortúnios remontam ao seu nascimento, o autor estabelece a relação entre pobreza, criminalidade e abandono social – elementos que permeiam as vivências do jovem Oliver ainda na infância.

Assim, o pequeno órfão torna-se vítima da fome e da negligência do governo, incapaz de prover-lhe uma infância digna. Ao mesmo tempo, personagens de classes superiores demonstram apatia quanto à sua situação, contribuindo para a perpetuação da carência – já tão disseminada em meio à sociedade.

“Durante muito tempo, depois de ser trazido a este mundo de tristeza e dor, pelo cirurgião dos pobres da freguesia, foi motivo de muita dúvida se a criança sobreviveria bastante tempo para receber um apelido qualquer.”

Ao longo da história, Twist depara-se ainda com inúmeros indivíduos que buscam auxiliá-lo em sua jornada, afastando-o da criminalidade que se apresenta em seu percurso. Contudo, frente ao referido cenário, torna-se válido questionar-se: o que seria do pequeno Oliver sem o suporte fornecido, tão escasso em seus primeiros anos de vida? Afinal, não há dúvidas de que sua infância foi degradada pelas condições de abuso e de sofrimento impostas.

Portanto, a assistência e o devido auxílio mostram-se fatores essenciais para o pleno desenvolvimento da criança. E, embora o romance de Dickens retrate a Inglaterra do século XIX, diversos direitos do jovem são ainda denegridos diariamente. Apenas concretizando-se determinações de documentos como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) – admirável em suas expressões, porém parcamente efetivado – destinos como o de Oliver terão os elementos necessários para conduzirem seu próprio caminho.

“Inacreditável” e o estupro em questão no Brasil

 

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Obra da artista Dani Acioli

A minissérie “Inacreditável” – baseada em fatos ocorridos entre 2008 e 2011, nos Estados Unidos – aborda temáticas que, embora angustiantes, demandam discussões mais aprofundadas frente ao atual cenário de descaso e de violência.  Retratando a realidade do abuso sexual sob diversas perspectivas – desde a vítima cujo discurso é desacreditado, até as investigadoras que buscam solucionar tais casos – a obra desnuda questões que perpassam, expressivamente, o mundo contemporâneo.

No Brasil, revela-se um panorama alarmante: em 2018, foram registrados 180 estupros por dia, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Contudo, considerando os elevados índices de subnotificação – fundamentada, sobretudo, no constrangimento, na negligência policial e no medo – esses índices podem mostrar-se ainda superiores.

E por trás de cada número – elemento tão sóbrio e alienado do sofrimento cotidiano  – encontra-se um ser humano, cuja vida foi permanentemente agredida pelos acontecimentos. Afinal, além dos minutos que compreendem o ato em si, a dor pungente dilacera o corpo e a alma, perpetua-se, como uma ferida nunca cicatrizada.

Convém ainda destacar a discriminação e o descrédito que, por vezes, são destinados àqueles que mais necessitam de proteção. Violentada, ferida, humilhada, a vítima é duplamente reduzida ao mais ignóbil grau de respeito humano, tornando-se também ré ante o julgamento da sociedade.

Dói pensar na violência desmedida que tem sido perpetrada nos últimos tempos. Porém, dói ainda mais conhecer a escassa rede de apoio disponibilizada aos indivíduos violentados. Em um país onde, de um lado, a comunidade culpabiliza a vítima por tais agressões e, de outro, as forças investigativas são parcamente voltadas a ocorrências semelhantes, torna-se imperativo que a realidade seja continuamente aperfeiçoada.

E eu poderia afirmar que, de tijolo em tijolo – mesmo que a passos lentos – seria um processo verdadeiramente construtivo, a transformar a atual conjuntura. Entretanto, urge que essa transformação ocorra de maneira imediata, pois a violência sexual não aguarda pelo tempo propício. Assim, o combate ao crime, a eficácia nas investigações e o esclarecimento da população mostram-se medidas fundamentais, a fim de evitar novas existências dilaceradas pela angústia de ter seu corpo invadido.